terça-feira, janeiro 13




A CRIANÇA DA EDUCAÇÃO INFANTIL E O MUNDO LETRADO


RESUMO




A criança esta em constante desenvolvimento, e por esta razão encontra-se sempre cheia de dúvidas e curiosidades. Ela vive em uma sociedade letrada, com muitos atrativos tecnológicos, o que despertam a curiosidade e a vontade de ler e escrever antes mesmo de freqüentarem a escola. Frente a esta realidade, o presente artigo tem por finalidade discutir sobre a alfabetização na educação infantil e sua concepção escolar, pois as crianças estão cada vez mais cedo se alfabetizando. Palavras Chaves: alfabetização - educação infantil - processo de ensino-aprendizagem
A criança vive em uma sociedade letrada, começa a interagir com as letras muito antes de entrar na escola, evidencia um ambiente repleto de materiais escritos que despertam a curiosidade, assim, desde o nascimento ela convive com a língua escrita. Vivemos em um mundo repleto de atrativos e tecnologias avançadas, os brinquedos estão cada vez mais sofisticados levando-as a quererem descobrir o novo, facilitando e incentivando assim meios para uma alfabetização fora da escola. "A criança de nossas pré-escolas vive numa sociedade letrada; não faz parte de uma sociedade ágrafa. A aquisição da língua escrita é imprescindível para que ela tenha ampliadas as suas possibilidades de entender e intervir na realidade". (SAMPAIO, 1997, p. 59)
Entretanto, mesmo as crianças tendo contato com a língua materna desde bebê e vivendo em um mundo letrado, nem todas apresentam interesse pela alfabetização durante a educação infantil, pois o meio em que estão inseridas ainda não as motivou. Segundo Piaget (apud MICOTTI, 1987) o sujeito procura ativamente compreender o mundo que o rodeia e trata de resolver as interrogações que este provoca, ou seja, se a criança está motivada a querer entender como se escreve e lê certa palavra, ela através de suas próprias ações sobre os objetos é capaz de construir suas categorias de pensamento, organizar suas idéias e assim entender aquilo que deseja.

A Alfabetização na Educação Infantil
Antes dos anos 70 (Bellés, 2001), acreditava-se que as crianças não possuíam nenhum entendimento ou conhecimento com relação à escrita (letras), só iriam desenvolvê-lo através de métodos utilizados na escola. As professoras, durante muito tempo, defenderam a idéia de que a criança para ser alfabetizada deveria passar por testes de prontidão.
A realidade que encontramos atualmente nas escolas infantis esta muito diferente daquelas descritas em décadas passadas. Estamos vivendo um complexo processo de mudanças que afeta a sociedade e conseqüentemente as estruturas educacionais, exigem-se aspectos dinâmicos e qualitativos. Com o passar dos anos e com os avanços nas pesquisas, hoje sabemos que as crianças não precisam freqüentar uma escola para terem contato com a escrita.
Por tanto, assim como o adulto, a criança convive com a leitura e escrita em todos os momentos, como por exemplo, ao manejar um livro de histórias infantis, ao pegar a embalagem de algum brinquedo, ao simples fato de estar passeando e observar os autdoors, propagandas, vitrines, entre outros. Quanto a esta realidade Ferreiro e Teberosky (1999) dizem que "é bem difícil imaginar que uma criança de 4 ou 5 anos, que cresce num ambiente urbano no qual vai reencontrar, textos escritos em qualquer lugar não faça nenhuma idéia a respeito da natureza desse objeto cultural até ter 6 anos e uma professora à sua frente". (p. 29)
Tais fatos são reconhecidos pelas escolas infantis atualmente, assim, quanto mais se oferecer a criança o contato com diferentes linguagens, maior será seu universo cultural. As escolas precisam estar atentas ao momento certo de começar a introduzir a alfabetização. E esta é uma pergunta que sempre está em pauta nas reuniões: devemos ou não alfabetizar na educação infantil?
O desenvolvimento da linguagem escrita não é, portanto, a única razão de ser da educação pré-escolar. (FACCHINI, 1999) A educação infantil preocupa-se em desenvolver ações que envolvam o conhecimento, socialização, construção da autonomia, criatividade, solidariedade, cooperação e a autoconfiança.
O papel da educação infantil, (CASTRO,1986) é de proporcionar um ambiente rico em desafios, respeitar a espontaneidade e a criatividade da criança, favorecer informações sobre o mundo que a cerca, satisfazer necessidades emocionais, sociais e físicas. A alfabetização, quando não estimulada, é conseqüência destas oportunidades vivenciadas na educação infantil.
Durante muitos anos, acreditou-se que a educação infantil, antiga pré-escola, tinha como funções principais a formação de hábitos, atitudes e a preparação para o ingresso na 1ª série do ensino fundamental. Priorizavam-se atividades que envolvessem o desenhar, recortar, colar, pintar, modelar, correr, ouvir, cantar, entre outras, para que pudessem desenvolver as "habilidades" do ler e escrever. Partia-se do princípio de que a criança deveria ter uma "maturidade" visível para começar o processo de alfabetização. Nas décadas de 60 e 70 eram aplicados testes de prontidão, o chamado ABC, criado por Lorenzo Filho (1960, apud Ferreiro e Teberosky, 1999), o qual decidia se uma criança poderia ou não começar sua aprendizagem sistemática, era necessário que possuísse "um mínimo de "maturidade" na coordenação viso-motora e auditivo-motora, além de um bom quociente intelectual e de um mínimo de linguagem". (p.36)
Hoje, estas concepções sofreram mudanças, algumas crianças alfabetizam-se sozinhas, sem precisar passar por todas estas atividades.
A pré-escola precisa ser um espaço onde a criança tenha contato com a leitura e a escrita. Onde possa pensar sobre o que representa e de que modo se comunica através da escrita. Onde a leitura e a escrita possam ser utilizadas com sentido. (SAMPAIO, 1997, p. 61)
Algumas pesquisas já foram realizadas sobre o verdadeiro papel da educação infantil. Abramovay e Kramer (1987, apud MACHADO, 1991) comentaram sobre suas opiniões a respeito do assunto e ressaltaram que:
"quando dizemos que a pré-escola tem uma função pedagógica, estamos nos referindo, portanto, a um trabalho que toma a realidade e os conhecimentos infantis como ponto de partida e os amplia, através de atividades que têm um significado concreto para a vida das crianças e que, simultaneamente, asseguram a aquisição de novos conhecimentos. (p. 16)
A alfabetização na educação infantil é um assunto que vem sendo estudado e debatido durante muitos anos. No entanto, a discussão apresenta duas linhas de pensamento: a que defende a alfabetização na educação infantil e a que acredita ser necessário um certo grau de maturidade a qual a criança na faixa etária entre 4 e 5 anos não desenvolveu.Muitos pesquisadores, acreditam que a função da educação infantil não é alfabetizar, porém para Cagliari (1999) "aos cinco anos uma criança está mais do que pronta para ser alfabetizada [...], nesta idade, ela já conheceu e aprendeu muita coisa da vida, do mundo e até da história, já testou sua participação na sociedade, seu relacionamento com pessoas diferentes", (p. 106) mas "isso não significa que ela queira ser alfabetizada". (p. 107) O autor afirma ainda que "essas considerações mostram que, mais importante do que a idade é a vontade do aluno de se alfabetizar".(p. 107)
Kramer e Abramovay (1986) acreditam "que não há qualquer tipo de impedimento teórico ou argumentação que justifique a impossibilidade de se alfabetizar na pré-escola" (p. 175)
O pleno êxito no processo de aprender a ler e escrever requer, portanto, a integração de dois níveis de conhecimento. O primeiro, de natureza intuitiva, consiste de uma capacidade para usar apropriadamente a língua escrita enquanto instrumento de comunicação. O segundo, de natureza consciente, permite uma compreensão de como as unidades de som estão representadas na escrita. A construção e a integração desses dois níveis de conhecimento é uma conquista da criança movida pelo seu interesse no objeto língua escrita, e facilitada pelas interações com adultos, envolvendo uma exploração ativa da leitura e da escrita. As pseudo-leituras e as pseudo-escritas parecem construir parte importante deste processo, que é sobretudo um processo de descoberta. (REGO, 1988, p. 132)
Poersch (1992, apud FACCHINI, 1999) afirma "a alfabetização, em geral, se processa por volta dos sete anos. A alfabetização exige um determinado estágio de amadurecimento global. Enquanto esse estágio não tiver sido atingido pela criança, não convém forçá-la a adquirir uma habilidade para a qual ainda não está preparada. (p. 19)
Lima (1991) acredita que a idade historicamente escolhida de sete anos para o início da escolaridade (alfabetização) e da aprendizagem propriamente dita, não se trata de mera coincidência, ou seja "esta escolha certamente resultou da observação intuitiva das crianças, pois é nesta idade que elas estão capacitadas, por já possuírem uma estrutura mental operatória, a compreender regras e obedecê-las, a organizar-se no mundo e organizá-lo". (p.65)

Tais opiniões geram conflitos com relação a alfabetização na educação infantil.
É importante definir o que é alfabetização. Sendo assim, Cagliari (1999) afirmar que alfabetizar é aprender a ler e escrever, "em outras palavras, a alfabetização realiza-se quando o aprendiz descobre como o sistema de escrita funciona, isto é, quando aprende a ler, a decifrar a escrita". (p. 113)
Kramer e Abramovay (1985 apud Ávila, 1997) “chamam a atenção dos educadores para a necessidade de que se entenda alfabetização como um processo ativo, em permanente construção”. (p. 38)
O professo da alfabetização na educação infantil, é um assunto que deve receber a maior importância e atenção. Ferreiro (1995), acredita que as discussões a respeito do assunto parecem eternas, porém necessárias.
Ávila (1995) acredita que as escolas devam atribuir uma atenção especial com relação ao assunto, principalmente no que diz respeito as salas de aulas, pois defende a idéia de que precisam estar adequadas ao processo, e principalmente, atribuir um cuidado com relação ao trabalho realizado na educação infantil, pois em muitas escolas tornam-se muito semelhantes aos das primeiras séries, "transformando-se em repetidos rituais de atividades de coordenação perceptivo-motoras e/ou de cópias e de reconhecimento de letras. (p. 38)
A autora comenta ainda sobre a organização das salas de aulas da educação infantil, escolas que acreditam que a alfabetização não deva ocorrer antes da 1ª série do ensino fundamental, retiram das paredes quaisquer vestígios da língua escrita, desaparecendo do ambiente; já aquelas que acreditam na alfabetização durante a educação infantil, enchem as paredes com letras, palavras e cartazes.
Para Ferreiro (1995) "numa sala de pré-escola deve haver coisas para ler". (p. 103) Acredito que as professoras devam ter certo bom senso, ou seja, não poluir as salas com cartazes, mas também não deixá-las nuas.
Segundo Sampaio (1997) mais do que nunca é necessário RE-pensar as práticas pedagógicas e ainda, pensar e discutir a função da pré-escola.
A alfabetização é um processo que se inicia em certo momento, mas encontra-se em constante construção. É na educação infantil que se deve assumir uma função social, ou seja, garantir a compreensão por parte das crianças daquilo que as rodeia, oferecendo condições para que decifre o mundo que a cerca, desenvolvendo assim diferentes formas de expressão. Isso significa, segundo Kramer e Abramovay que:
"a alfabetização na pré-escola extrapola o saber as vogais, o escrever o nome, ou o contar de zero a dez, da mesma forma que vai além da mera formação de hábitos e da abstrata proposta de desenvolvimento globalmente a criança. (1986, p. 171)
Os pais ao matricularem seus filhos nas escolas infantis, criam uma certa expectativa em torno do trabalho desenvolvido. Muitos consideram desnecessário a educação infantil, outros priorizam o contato com crianças da mesma faixa etária e um espaço para poderem brincar e correr.
Kramer e Abramovay (1986) acreditam que esta ansiedade por parte dos pais, destacada principalmente na rede privada, que seus filhos devam sair alfabetizados da educação infantil, está relacionado a um melhor aproveitamento do ano escolar, pois por um lado consideram um investimento financeiro muito grande e exigem um retorno visível e por outro lado, possuem a falsa ilusão de que assim estarão evitando uma possível reprovação na 1ª série.
Saliento a importância de respeitarmos o ritmo próprio de cada criança, partindo do pressuposto que somos ser únicos, com desenvolvimentos e necessidades individuais. O que a escola infantil, principalmente à particular, não pode permitir é que os pais interfiram neste aprendizado.
A alfabetização não deve ser algo imposto pelos adultos, segundo Ferreiro (1995) o acesso à língua escrita começa no dia e na hora em que os adultos decidem. (p. 98) Partindo do pressuposto que a criança alfabetiza-se de acordo com os estímulos e o meio em que está inserida, não precisamos forçar assim uma "alfabetização precoce".
Segundo a autora, a criança ao vivenciar contato com livros, jornais, cartazes da rua, embalagens de brinquedos ou alimentos; ao presenciar seus pais escrevendo, lendo uma carta, comentando sobre algum assunto que leu em uma revista; ela esta inconscientemente recebendo informações sobre a função social da escrita, facilitando a compreensão. Oferecer o contato com a leitura e escrita, permitindo-as experiências novas, mas em nenhum momento foi citado um trabalho imposto, o qual a criança deveria saber escrever ou reconhecer as palavras escritas.
Os professores vivem com um certo desconforto de decisões, por um lado seguem aqueles que defendem a alfabetização espontânea, a qual a criança tem condições de se alfabetizar considerando o meio que a cerca, e frente a isso nada poderemos evitar; outros acreditam que não devemos estimulá-las, porém enfrentamos uma outra barreira, os pais.
Considerações Finais
A alfabetização na educação infantil, é e sempre foi um assunto discutido no mundo inteiro, principalmente na América Latina. Mas o que até hoje não foi provado é se devemos ou não alfabetizar crianças na faixa etária dos 4 e 5 anos.
Como descrevi no artigo, existem diferentes linhas de pensamento. Porém, a prática como professora da Educação Infantil, fez eu acreditar que existe tempo certo para tudo, ou seja, não podemos forçar algo que a criança não tem vontade, principalmente se isto não é pré-requisito para a série posterior.
Acredito que a educação infantil deva ser um local agradável, que desenvolva todas as habilidades da criança, que ela se descubra como um ser social e consiga interagir com outros da mesma idade. Mas, se alguma instituição acredita que deve-se alfabetizar crianças pequenas, então ela precisa rever sua grade curricular. Eu só acredito em uma alfabetização na educação infantil, se os "conteúdos" e propostas da primeira série for modificada. Pois, se não houver uma mudança na série seguinte, isto será apenas repetições que não trarão benefício algum aos envolvidos, bem pelo contrário acarretarão situações como cansaço do aluno, esgotamento do professor, e o pior de todos, nenhuma destas etapas será vivida por completo.
Devemos trabalhar sim a escrita na educação infantil, mas de uma forma mais prazerosa, com o objetivo apenas de conhecer e não com a obrigação de aprender.
Destaco alguns trabalhos que considero importante trabalhar na educação infantil:
- conhecer e escrever seu nome e o dos colegas;- ouvir e contar histórias;- dramatizações;- contato com livros, encartes de jornais e revistas;- participações em feiras, museus, peças teatrais;- conhecer o alfabeto e identificar palavras, entre outros.
Mas se alguma criança tiver interesse além, não devemos desmotivai-la. Assim, gostaria de deixar bem claro que não acredito em uma alfabetização forçada, a qual poderá causar perdas irreparáveis ao processo do desenvolvimento infantil da criança, mas uma alfabetização natural, que parta do interesse de cada um, pois temos nosso próprio ritmo.
Bibliografia
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